numa noite dessas…

Acordo e me vejo sem chão. Pendente em um feixe vermelho e preto. Uma espécie de corda bamba na qual tenho que me equilibrar e volta e meia me proteger das rampas que passam por cima da minha cabeça. Em uma prancha de surf sou transportado para um domínio incógnito no qual consigo ver sem sentir todos os circuitos dos quais sou constituído.

“Eu não tenho medo, mas não quero voltar pra casa. É tarde, é frio.”

Sou embriagado pelos fantasmas que me fazem correr, mas me percebo sem calcanhar. Pego a primeira rampa desconhecida que passa rumo a algum lugar periférico. Um bairro punk de deuses auto-suficientes. Sofia espera por mim tragando em folhas de revista.

“Seus lábios são minha saída. Seus lábios são minha saída. Seus lábios são minha saída.”

Somos só nós dois e a massa nos envolve em torno da pista de dança com desenho de bússola. Estou desorientado.

“Meus lábios são sua saída. Meus lábios são sua saída.”

Não fuja! Olho os olhos manchados. Faces indigestas me dão náusea. Ignoro-as e te procuro. Por que fugiste? Me perseguem com foices e vozes. Corro muito sem saber e quando percebo sou rato de laboratório. Sinto minha espinha gelar ao te ver na outra jaula. Encarcerada, extasiada, vivendo céus de borboletas psicodélicas com detalhes transparentes nas asas. Sou injetado com doses cavalares de insuficiência e desmancho escoando pelo ralo, por dentre fios capilares e vou te encontrar no próximo túnel delgado do submundo urbano. Somos eu e você novamente de meias e tênis, de códigos indecifráveis ( eles não entenderiam). Pegamos o trem rumo à próxima estação. Terminal, ilusão. Tomamos o velocífero de rodas de fogo rosa mas não temos dinheiro pra pagar. O guardião quer te ter como pagamento e eu espero terminar enquanto tomo um pouco de morfina lendo uma fábula infantil. Nela, Branca me engana. Sorri com brinco escarlate falso. Ouço um ruído vindo de trás do mar. Vou até lá e me despeço, te abandono. É hora de ser forte. Não alcanço a alça e tomo no pote mesmo e começo a queimar por inteiro. Gavetas dali e de lá saem do meu corpo e num ritmo frenético começam a abrir e fechar liberando raios e relâmpagos da minha saia rodada de sentinela satânica. Meus olhos amarelos dançam em círculos quando começo a quebrar pelo meio. No início era são um arranhão. No início era só um arranhão. Não posso fazer nada. O azul é muito intenso e profundo. Me engole em camadas. Tão esfuziante é a chegada no grande mito. Nebulosas, cometas de véu negro. Caio no tabuleiro de xadrez de quadrados fluorescentes de néon pálido, salto de posto em posto com meu cavalo de pedra escalo a torre e decapito a rainha que tomava chá com uma camisa dos Sex Pistols feita de bites. Flutuo de novo dentro de bóias de pneu de cachoeira. Estou limpo…

“Mãe, acabei!!!!!!!!!!

Ciberneticamente, deixo de ser e os pedaços de minha consciência caem na esteira vermelha e preta agora com furos irregulares e aspecto pegajoso. Sou depositado em uma garrafa. Não sei se serei vendido em conserva ou se consertam meu coração. Ganho um novo. Preciso de uma face pra desaparecer, mas permanecem ao meu lado. Deite aqui (me deram um coração). Deite aqui ( por enquanto tenho um). Deite (do meu lado de portas trancadas).

Foi o que me disseram quando me deram um coração novo. Átrios de um novo destino diastólico e fluente, fluido. Fluo por entre pairagens que , de novo, do meu lado não consigo me por no meu lugar. Talvez não agora. Talvez nunca mais.

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