“Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro.”
Assim Jean-Dominique Bauby inicia o livro que inspirou o vencedor do Globo de Ouro 2007, “O Escafandro e a Borboleta” ,que acaba de estrear no Rio de Janeiro. O filme conta o drama real vivido pelo diretor da revista Elle que após sofrer um derrame cerebral é acometido de uma síndrome rara (locked-in) que o deixa totalmente incapacitado e sem voz após acordar de 20 dias de coma.
Sem poder falar e mexer nenhuma parte do corpo ele só consegue se comunicar com o piscar de seu olho esquerdo e num exemplo de perseverança, não sem muitas dificuldades, com ajuda de uma equipe de belíssimas médicas, escreve sua auto-biografia.
Um colírio de fotografia, inicialmente vemos o longa sob a ótica do personagem central e com ele vamos vivendo a angústia de quem, aprisionado ao próprio corpo (como num escafandro), só lhe resta sua memória e imaginação, que o permite voar ( como uma borboleta) e viver, apesar dos limites impostos pela sua capacidade física liquidada.
Em seqüências de tomadas entrecortadas com vozes (das pessoas e da consciência de Jean-Do) sustentadas por uma trilha excelente com músicas do U2, Tom Waits e Lou Reed, é claro o objetivo do roteirista Ronald Harwood (o mesmo de O amor nos tempos do cólera e O pianista) em fugir da obviedade geralmente atribuída a este tipo de argumento. Mais do que um filme sensorial, ele consegue alcançar a alma. È uma ode à vida.
http://www.lescaphandre-lefilm.com
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