Certa noite, a falta do que fazer e o excesso de ideias criativas povoando sua mente, sempre inventiva, fizeram a jornalista Renata Victal (Vic, para os íntimos) pular do sofá saltitante com a sua mais nova ideia: promover encontros regulares e informais nos quais as pessoas levassem poesias e as pendurassem em varais para serem lidos por todos. Enquanto ela não organiza o meeting, que tem tudo pra ser bafo, na hora, seus dedos pularam pro teclado e o blog Poesia no Varal foi criado. É só entrar, saborear e, porque não, se atrever a postar.
É gritante a quantidade de mitos e teorias que tentam se impor como o ideal estereotipado de juventude. O jovem é o que consome, o que se diverte, o que tem uma profissão, é o retrato do país, é o produto mais vendido pela cultura midiática. Como disseram os Engenheiros do Havaí, o maior estandarte da juventude é uma banda estampada numa propaganda de refrigerante (light de preferência).
Todos falam tanto em aproveitar esta tal juventude, mas em que consiste esta inconsistência? Já que a onda é exatamente não aproveitar nada. Não aproveitamos nosso tempo livre, não aproveitamos os prazerosos momentos a dois. Estamos sempre na pressa e na busca deste tempo irremediavelmente fugidio, que se esvai em doses nem sempre homeopáticas desta juventude que não quer ser careta, que não quer ser como seus pais.
Minha dor não é perceber que apesar de termos feito tudo que quisemos, ainda somos como eles, mas que tornamos mais estranhos, mais bizarros. Afinal, todo jovem é meio maluco. Ele nem pensa que é um jovem. Por trás de olhos cabisbaixos podem existir pensamentos pervertidos. Afinal, jovem só pensa em sexo.
Como diria o jovem e imortal poeta Renato Russo em “Aloha”, todo adulto tem inveja dos mais jovens. Mais quem são os adultos e os mais jovens? Fico pensando o que será da minha vida pós-juventude. Até quando serei jovem? Será que eu vou ser um tiozinho inconformado com o penoso passar dos tempos? Ou serei pra sempre o jovem que acha que é maduro o suficiente para considerar desprezíveis os mais “jovens” do que eu?
Não sei o real significado de pertencer a esta casta tão almejada, imaginada como o shangrilá da passagem humana pela terra. Mas assim como todos os outros que estão rotulados dentro da categoria juvenil, olho para o lado e não vejo nada. Eu nem sinto meus pés no chão.
Arquivado em: máquina de escrever
Acordo e me vejo sem chão. Pendente em um feixe vermelho e preto. Uma espécie de corda bamba na qual tenho que me equilibrar e volta e meia me proteger das rampas que passam por cima da minha cabeça. Em uma prancha de surf sou transportado para um domínio incógnito no qual consigo ver sem sentir todos os circuitos dos quais sou constituído.
“Eu não tenho medo, mas não quero voltar pra casa. É tarde, é frio.”
Sou embriagado pelos fantasmas que me fazem correr, mas me percebo sem calcanhar. Pego a primeira rampa desconhecida que passa rumo a algum lugar periférico. Um bairro punk de deuses auto-suficientes. Sofia espera por mim tragando em folhas de revista.
“Seus lábios são minha saída. Seus lábios são minha saída. Seus lábios são minha saída.”
Somos só nós dois e a massa nos envolve em torno da pista de dança com desenho de bússola. Estou desorientado.
“Meus lábios são sua saída. Meus lábios são sua saída.”
Não fuja! Olho os olhos manchados. Faces indigestas me dão náusea. Ignoro-as e te procuro. Por que fugiste? Me perseguem com foices e vozes. Corro muito sem saber e quando percebo sou rato de laboratório. Sinto minha espinha gelar ao te ver na outra jaula. Encarcerada, extasiada, vivendo céus de borboletas psicodélicas com detalhes transparentes nas asas. Sou injetado com doses cavalares de insuficiência e desmancho escoando pelo ralo, por dentre fios capilares e vou te encontrar no próximo túnel delgado do submundo urbano. Somos eu e você novamente de meias e tênis, de códigos indecifráveis ( eles não entenderiam). Pegamos o trem rumo à próxima estação. Terminal, ilusão. Tomamos o velocífero de rodas de fogo rosa mas não temos dinheiro pra pagar. O guardião quer te ter como pagamento e eu espero terminar enquanto tomo um pouco de morfina lendo uma fábula infantil. Nela, Branca me engana. Sorri com brinco escarlate falso. Ouço um ruído vindo de trás do mar. Vou até lá e me despeço, te abandono. É hora de ser forte. Não alcanço a alça e tomo no pote mesmo e começo a queimar por inteiro. Gavetas dali e de lá saem do meu corpo e num ritmo frenético começam a abrir e fechar liberando raios e relâmpagos da minha saia rodada de sentinela satânica. Meus olhos amarelos dançam em círculos quando começo a quebrar pelo meio. No início era são um arranhão. No início era só um arranhão. Não posso fazer nada. O azul é muito intenso e profundo. Me engole em camadas. Tão esfuziante é a chegada no grande mito. Nebulosas, cometas de véu negro. Caio no tabuleiro de xadrez de quadrados fluorescentes de néon pálido, salto de posto em posto com meu cavalo de pedra escalo a torre e decapito a rainha que tomava chá com uma camisa dos Sex Pistols feita de bites. Flutuo de novo dentro de bóias de pneu de cachoeira. Estou limpo…
“Mãe, acabei!!!!!!!!!!
Ciberneticamente, deixo de ser e os pedaços de minha consciência caem na esteira vermelha e preta agora com furos irregulares e aspecto pegajoso. Sou depositado em uma garrafa. Não sei se serei vendido em conserva ou se consertam meu coração. Ganho um novo. Preciso de uma face pra desaparecer, mas permanecem ao meu lado. Deite aqui (me deram um coração). Deite aqui ( por enquanto tenho um). Deite (do meu lado de portas trancadas).
Foi o que me disseram quando me deram um coração novo. Átrios de um novo destino diastólico e fluente, fluido. Fluo por entre pairagens que , de novo, do meu lado não consigo me por no meu lugar. Talvez não agora. Talvez nunca mais.
Que saudades do tempo em que eu esperava, ansioso, pelo lançamento do cd novo da minha banda preferida. Quando este chegava às lojas, eu ia correndo à Saraiva, no Centro do Rio, pra saciar logo a minha sede por novidades, sobretudo musicais. Na seção de discos, com o coração a pulsar aceleradamente, eu ia ao encontro da minha tão sonhada futura aquisição. Mas a transição de tempo era rápida e, em instantes, ele já era meu presente. Com meu cd na mão em sua totalidade (capa, contracapa, encarte, fotos, letras ou não), todo o resto do mundo passava a não fazer sentido algum até que eu adentrasse aquele mundo então desconhecido e tirasse minhas próprias conclusões.
Este ritual existiu por um bom tempo e me permitia ouvir, ouvir e ouvir de novo o lançamento até algum dia enjoar. Mas quando isso ocorria, ele já fazia parte da minha vida, tecendo a trilha sonora de momentos inesquecíveis. Hoje, diante das possibilidades propiciadas pelo download, continuo na mesma busca desenfreada por novidades, o problema é que acabou o elo mágico que me identificava à determinada banda. A enxurrada de novidades atual não me deixa conhecer nada, ao passo que me conforta com doses homeopáticas de múltiplas vertentes, sempre nascendo e morrendo em their spaces.
Perdeu o encanto conhecer o novo cd da minha banda, que o disponibilizou pra download, do qual eu já ouvira os novos hits meses antes do lançamento. Quando estiver disponível eu baixo, quando eu tiver tempo, ouço, se gostar levo no iPod, se não, vai ficar perdida na minha pasta de incoming. Isso até ouvir falar da nova badalada banda indie do subúrbio Irlandês, cujo remix feito pelo Dj sensação do momento já estoura nas pistas de Nova Iorque.






