A boa da noite de sábado, já adiantada em uma hora por causa do horário de verão, não foi pelas bandas da Lapa ou da Zona Sul. O burburinho causado pela galera antenada e fashionista agitou a desértica zona portuária da cidade no show da banda belga de electro-rock Vive La Fête, no Centro Cultural Ação da Cidadania.
O espaço, que nos lembra uma antiga fábrica inglesa, foi transformado em uma grande e diferente “rave”, como insistiam em pontuar os taxistas e cambistas na entrada da grande construção. Mas lá dentro, o público cool dançava mesmo ao som dos melhores hits de rock enquanto aguardavam a entrada da banda no palco.
Aos primeiros acordes da guitarra de Danny Mommens o público já se aglomerava pra pular e dançar muito aos som dos hits mais famosos de seus cinco álbuns. Els Pynoo chegou de preto esvoaçante, elétrica, esbanjando elegância e talento com sua voz potente. O gostinho de quero mais no final do show só comprovou a famosa sintonia do casal que, realmente, parece ser sua fórmula de sucesso.
Na noite quente de lua cheia de ontem, a Cinelândia foi tomada por uma eufórica galera de óculos de armação grossa, camisas listradas e tênis All Star, muitos deles. Era a fila para assistir ao show do Artic Monkeys no Odeon.
Não foi nenhuma turnê extra-oficial do grupo inglês, mas uma experiência inédita na cidade. A tradicional sala de cinema exibiu o vídeo do show “Artic Monkeys At The Apollo”, no mesmo dia em que foi lançado em Londres, Luxemburgo e Barcelona.
Durante os 97 minutos de apresentação, o público animado aplaudiu, gritou e dançou ( na medida das limitações da poltrona) ao som de “I bet tou look good on the dancefloor”, “Teddy Picker” e “A certain romance” e suspirou com a introdução de “505″ tocada por Alex Turner em um teclado. No final, houve até quem pedisse pra tocar Raul e uma menina gritou pedindo a paleta. Coisas de carioca…
O vídeo, que possui uma primorosa edição, é a cara dos Monkeys e estará nas lojas dia 3 de novembro.
Noite de sexta-feira. É quando as meninas do complexo Ipanema-Leblom após passarem horas a fio alisando fio a fio suas madeixas e franjas, desfilam com suas argolas e vestidos abaloados com estampas tropicais, seguindo, “como manda o figurino”, a bíblia da última temporada outono-inverno.
É também quando os plays, muitas vezes despidos de seus “hábitos” diurnos, nos quais encarnam estagiários de economia ou direito da Católica, trajam o uniforme beach wear by Osklen. Em movimentos previsíveis, porém calculados, acreditam ostentar o resultado do árduo trabalho nas academias cariocas. Erguem com prazer a cerveja do posto de gasolina como se fosse um troféu, neste púlpito, ápice de um ritual quase litúrgico, mas instintivamente humano de atração do sexo oposto. Um culto batizado pela música alucinante e alucinada que hesita em alternar de batida, não poupando o ouvido do mais pudico fiel ou mesmo do mais cético dos mortais.
Esta trama, cujos códigos e linguagens constituem o painel quase estático da vida noturna da cidade, não deixou de esboçar-se na última sexta-feira pelos lados da Lagoa Rodrigo de Freitas. Entretanto, um acontecimento de ordem religiosa chamou a atenção dos habitués habituados com a tranqüilidade quase surda das ruas de Ipanema à noite.
De uma lado, os irrepreensíveis da Katmandu. De outro, os moderninhos do Dama de Ferro. No meio, fervorosos evangélicos pareciam reviver o dia de pentecostes e, de uma forma inusitada e (por que não?) inovadora, seguir à risca a passagem bíblica: “Ide e pregai o evangelho a todas as criaturas”. Munidos de um megafone, o grupo (de mais ou menos umas seis pessoas), espremido dentro de um Chevette, conclamava os moradores do submundo do pecado a abandonarem aquelas vidas de filas, luzes, não-luzes e affair incontroláveis.
Sob os dardos venenosos dos olhares e sorrisos blazés, o exército de Cristo partiu em retirada, aparentemente, com o sentimento de objetivo não alcançado. Pelo menos não a quem esperava pra adentrar à casa de ferro e concreto da Vinícius de Morais, cuja gerente, com uma taça de champanhe na mão ousou esbravejar: “Que ardamos todos no fogo do inferno!”




