opção por viver

Julho 3, 2008 - No Responses

“Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro.”

Assim Jean-Dominique Bauby inicia o livro que inspirou o vencedor do Globo de Ouro 2007, “O Escafandro e a Borboleta” ,que acaba de estrear no Rio de Janeiro. O filme conta o drama real vivido pelo diretor da revista Elle que após sofrer um derrame cerebral é acometido de uma síndrome rara (locked-in) que o deixa totalmente incapacitado e sem voz após acordar de 20 dias de coma.

Sem poder falar e mexer nenhuma parte do corpo ele só consegue se comunicar com o piscar de seu olho esquerdo e num exemplo de perseverança, não sem muitas dificuldades, com ajuda de uma equipe de belíssimas médicas, escreve sua auto-biografia.

Um colírio de fotografia, inicialmente vemos o longa sob a ótica do personagem central e com ele vamos vivendo a angústia de quem, aprisionado ao próprio corpo (como num escafandro), só lhe resta sua memória e imaginação, que o permite voar ( como uma borboleta) e viver, apesar dos limites impostos pela sua capacidade física liquidada.

Em seqüências de tomadas entrecortadas com vozes (das pessoas e da consciência de Jean-Do) sustentadas por uma trilha excelente com músicas do U2, Tom Waits e Lou Reed, é claro o objetivo do roteirista Ronald Harwood (o mesmo de O amor nos tempos do cólera e O pianista) em fugir da obviedade geralmente atribuída a este tipo de argumento. Mais do que um filme sensorial, ele consegue alcançar a alma. È uma ode à vida.

http://www.lescaphandre-lefilm.com

numa noite dessas…

Junho 23, 2008 - No Responses

Acordo e me vejo sem chão. Pendente em um feixe vermelho e preto. Uma espécie de corda bamba na qual tenho que me equilibrar e volta e meia me proteger das rampas que passam por cima da minha cabeça. Em uma prancha de surf sou transportado para um domínio incógnito no qual consigo ver sem sentir todos os circuitos dos quais sou constituído.

“Eu não tenho medo, mas não quero voltar pra casa. É tarde, é frio.”

Sou embriagado pelos fantasmas que me fazem correr, mas me percebo sem calcanhar. Pego a primeira rampa desconhecida que passa rumo a algum lugar periférico. Um bairro punk de deuses auto-suficientes. Sofia espera por mim tragando em folhas de revista.

“Seus lábios são minha saída. Seus lábios são minha saída. Seus lábios são minha saída.”

Somos só nós dois e a massa nos envolve em torno da pista de dança com desenho de bússola. Estou desorientado.

“Meus lábios são sua saída. Meus lábios são sua saída.”

Não fuja! Olho os olhos manchados. Faces indigestas me dão náusea. Ignoro-as e te procuro. Por que fugiste? Me perseguem com foices e vozes. Corro muito sem saber e quando percebo sou rato de laboratório. Sinto minha espinha gelar ao te ver na outra jaula. Encarcerada, extasiada, vivendo céus de borboletas psicodélicas com detalhes transparentes nas asas. Sou injetado com doses cavalares de insuficiência e desmancho escoando pelo ralo, por dentre fios capilares e vou te encontrar no próximo túnel delgado do submundo urbano. Somos eu e você novamente de meias e tênis, de códigos indecifráveis ( eles não entenderiam). Pegamos o trem rumo à próxima estação. Terminal, ilusão. Tomamos o velocífero de rodas de fogo rosa mas não temos dinheiro pra pagar. O guardião quer te ter como pagamento e eu espero terminar enquanto tomo um pouco de morfina lendo uma fábula infantil. Nela, Branca me engana. Sorri com brinco escarlate falso. Ouço um ruído vindo de trás do mar. Vou até lá e me despeço, te abandono. É hora de ser forte. Não alcanço a alça e tomo no pote mesmo e começo a queimar por inteiro. Gavetas dali e de lá saem do meu corpo e num ritmo frenético começam a abrir e fechar liberando raios e relâmpagos da minha saia rodada de sentinela satânica. Meus olhos amarelos dançam em círculos quando começo a quebrar pelo meio. No início era são um arranhão. No início era só um arranhão. Não posso fazer nada. O azul é muito intenso e profundo. Me engole em camadas. Tão esfuziante é a chegada no grande mito. Nebulosas, cometas de véu negro. Caio no tabuleiro de xadrez de quadrados fluorescentes de néon pálido, salto de posto em posto com meu cavalo de pedra escalo a torre e decapito a rainha que tomava chá com uma camisa dos Sex Pistols feita de bites. Flutuo de novo dentro de bóias de pneu de cachoeira. Estou limpo…

“Mãe, acabei!!!!!!!!!!

Ciberneticamente, deixo de ser e os pedaços de minha consciência caem na esteira vermelha e preta agora com furos irregulares e aspecto pegajoso. Sou depositado em uma garrafa. Não sei se serei vendido em conserva ou se consertam meu coração. Ganho um novo. Preciso de uma face pra desaparecer, mas permanecem ao meu lado. Deite aqui (me deram um coração). Deite aqui ( por enquanto tenho um). Deite (do meu lado de portas trancadas).

Foi o que me disseram quando me deram um coração novo. Átrios de um novo destino diastólico e fluente, fluido. Fluo por entre pairagens que , de novo, do meu lado não consigo me por no meu lugar. Talvez não agora. Talvez nunca mais.

e o vento trouxe… (o fim dos tempos)

Junho 20, 2008 - 3 Responses

Duas jovens conversam em um banco de praça. Minutos após uma suave brisa que bate, uma delas começa a falar de modo repetitivo e desconexo, em seguida retira seu prendedor de cabelo e o encrava no próprio pescoço. De repente, praticamente toda a cidade da Filadélfia é ameaçada por um vírus que se espalha, acabando com o instinto de sobrevivência das pessoas, o que provoca uma série de suicídios em massa.

A idéia não é nada mal em se tratando da mais nova produção do cineasta indiano M. Night Shyamalan, que surpreendeu pláteias com Sexto Sentido, Sinais e A vila. Entretanto, ao sair de uma sessão de Fim dos Tempos, é inevitável lembrar e lamentar pela sensação de replay, de quem há dois anos acabava de assistir A dama na água, que já parecia prever o que viria por aí, na obra do diretor.

Com um roteiro digno de vencedor da categoria “Blockbuster Standard”, em Fim dos tempos mais uma vez Shyamalan recorre à antítese entre fé e razão, o controlado e aleatório, o certo e o oculto. A princípio, o longa soa como protesto ecológico, mas entre desastres, mortes catastróficas e personagens “timburtunianos” também é perceptível um “quê” de anti-terrorismo.

E é numa profusão de clichês cinematográficos, em meio a um roteiro pobre, com falas previsíveis e um elenco de quinta que o professor de ciências Elliot Moore (Mark Wahlberg) emerge na trama como o típico herói americano, íntegro em seus valores e sagaz o suficiente para salvar o planeta com base em suas teorias e conduzir a trama ao previsível Happy End ( com direito a insinuação de continuidade e tudo).

sem limites para amar

Junho 6, 2008 - 7 Responses

Desde os primeiros estudos de um certo neurologista austríaco chamado Sigmund Freud sobre sexualidade, no século XIX, muitos mistérios já foram desvendados a cerca deste aspecto tão peculiar e interessante da natureza humana. Neste imenso labirinto onde fatores psicológicos se associam a questões sócio-culturais, o fetichismo, apesar de ser mais comum do que parece, ainda se apresenta como tabu para a maioria das pessoas.

Neste grupo, com certeza, não está inserida Naisho, a norte-americana de 37 anos que acabou de se casar com o cartão postal de Paris. Em uma cerimônia particular que contou com a presença de alguns amigos, ela declarou-se apaixonada pela torre, fazendo votos de confiança, honra e obediência.

Segundo o jornal britânico Daily Telegraph, Erika la Tour Eiffel, como gosta de ser chamada, já havia tido outros “casos” com objetos antes. Sua primeira paixão foi por “Lance”, seu arco com o qual havia ganhado uma competição, hoje trocado pela torre mais famosa do mundo.

Naisho-Érika, que já foi soldado, foi uma das entrevistadas num documentário produzido pela rede de TV britânica, BBC, sobre fetiches de pessoas por coisas inanimadas (pôster do David Beckham e do Rodrigo Santoro ficaram de fora).

A produção não poderia deixar de mencionar Eija-Riita Berliner Mauer, a sueca que há mais de 30 anos cunhou o termo “objectum sexual”. Eija-Riita, que também mudou seu nome legalmente para “Berliner Mauer”, ou “Muro de Berlim” afirma ter todos os documentos para provar seu “casamento” com o velho muro de Berlim, hoje vivo apenas em seu coração. Sua história pode ser conferida no site www.berlinermauer.se.

Compondo o time de “doidonas”, a britânica, “Emma”, de 43 anos, ainda não se libertou totalmente. Ela vai de rádio a aparelhos de som de alta-fidelidade. Seu amor atual batizou de Jake. Segundo ela o minisystem da Sony é “sólido, merecedor de confiança e lindo”.

O documentário também citou a americana vidrada em modelos das Torres Gêmeas. Essa preferiu o anonimato total, mas confessa que olhando de perfil, a estátua da liberdade não é tão mal assim.

Fontes:

www.ananova.com

www.bbc.co.uk

a barbárie não pede pra sair

Junho 3, 2008 - No Responses

Seis anos após a morte de Tim Lopes, que ganhou imenso destaque na mídia por ter caído nas garras de um maluco (Elias), iniciamos a semana perplexos com a notícia da equipe de “O Dia”, que foi torturada após 14 dias infiltrada como moradores de um barraco em uma área dominada por milícias na Zona Oeste do Rio.

A repórter, um fotógrafo e o motorista, ao serem descobertos, foram submetidos, segundo os veículos de comunicação, a diversos tipos de tortura na medida em que foram descobertas as fotos e informações enviadas à redação do jornal.

Após ser seqüestrada, tendo dinheiro e equipamentos roubados, a equipe foi espancada pelos criminosos, que fizeram roleta russa contra a cabeça da jornalista e sufocaram-na com um saco plástico. Se estas informações foram bem apuradas, eu acho que já vi este FILME antes.